segunda-feira, 4 de julho de 2011

Vai passar.

Fazia algum tempo desde a vez que a vi passar por aquela rua. Frienta, retraída em seus braços finos, com um casaco que não cobria nada. Ela me olhou e me reconheceu de outros olhares, de outros encontros por esta mesma rua. Não falei nada, como de costume, mas percebi que ela tinha um olhar vazio, como se dissesse “Vêm, me proteja, agora. Por favor...”
Reparei no seu corpo esguio, no seu caminhar latente, nas suas bochechas róseas devido ao frio. Quase pude sentir a dor que a roia por dentro que lhe rasgava as entranhas. Até me arrepiei. E ela continuou caminhando, de cabeça erguida, como se isso pudesse lhe salvar, diminuir o que estava sentindo.
Deu vontade de pará-la, de acomodá-la em meu peito, entre meus braços e dizer que tudo iria ficar bem que agora eu a protegeria, aqueceria. Mas não o fiz. Deixei-a ir como se não me afetasse, como se me bastasse toda essa distância pequena que existia entre nós. Como se este sentimento sem palavras que foi crescendo em meu peito fosse impuro diante daquela beleza e fragilidade exorbitantes.

Alguém a salvaria quando sua própria dor não o cegasse diante da dor dos outros.

5 comentários:

Bell Souza disse...

Não sei se entendo o sentimento do rapaz. Soa covarde, egoísta.

Lara Vic. disse...

concordo com a Bell sobre a covardia. Talvez uma história que merecesse ser lida devesse ter um final mais emocionante. Mas eu achei lindo como apenas o passar de uma semi-desconhecida na rua pode render sentimentos complexos desse jeito.

Julie Duarte disse...

Adorei o texto, só acho que o final poderia ser diferente, emocionante.

Hemilly Mares disse...

Tem história que é assim mesmo, decepcionante.

Thomas Victor disse...

eu prefiro pensar que são surpreendentes. E que cada uma só cumpre seu papel quando gera em quem lê algum sentimento, independente de qual seja. E isso, Hemi, você consegue fazer com a simplicidade e a intensidade de um abraço.

:8